Mineração na Serra do Curral pode comprometer reserva de água em BH

Mineração na Serra do Curral pode comprometer reserva de água em BH

Moradores e ambientalistas estão preocupados com a omissão das autoridades da área ambiental do Estado e o silêncio de empreendedores em relação à exploração minerária na mina Corumi, no Bairro Taquaril. Laudo do próprio IEF diz que “a mineração alterou o perfil do solo adjacente ao limite da área de preservação e reduziu a capacidade de armazenamento do Parque da Baleia”.

Diante da omissão das autoridades da área ambiental do Estado e o silêncio dos empreendedores em relação à condução da atividade minerária em uma mina na Serra do Curral, ambientalistas, ativistas e moradores estão preocupados e têm muito pouco a comemorar na semana em que foi celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente. O assunto estampado em capa do Jornal Estado de Minas, no último dia 3, dá mostras de que será uma longa batalha a ser travada. As denúncias são de que a atividade realizada pela Empresa de Mineração Pau Branco (Empabra) na mina de Corumi, no Bairro Taquaril, ameaça o Parque Estadual Floresta da Baleia e a Serra do Curral, um dos principais cartões-postais da cidade, tombado pelo patrimônio em níveis municipal, estadual e federal.

A denúncia é de ambientalistas e de moradores da região que buscaram apoio na Câmara Municipal de Belo Horizonte. De acordo com relatos, imagens produzidas pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) comparam o mesmo ponto da serra em 1996, 2017 e 2018 mostram mudança no perfil do maciço, indicando a atividade minerária em área tombada. Conforme publicou o Jornal Estado de Minas, “laudo produzido pelo IEF, gestor do Parque da Baleia, atesta que a mineração alterou o perfil do solo adjacente ao limite da área de preservação e reduziu a capacidade de armazenamento de água na microbacia da unidade de conservação. A alteração, indica o documento, abre possibilidade para desestabilização do solo e deslizamento de terra, o que pode desfigurar a formação geomorfológica da área de preservação ambiental. Apesar desse laudo, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) diz que o empreendimento não afeta a unidade de conservação, tem autorização da Agência Nacional de Mineração (ANM) e está respaldado por um termo de ajustamento de conduta (TAC) assinado com a empresa em 2015.”

O empreendimento denominado Complexo Minerário Serra do Taquaril (CMST), é uma lavra a céu aberto com tratamento a seco e a úmido – minério de ferro, com unidade de tratamento de minérios, obras de infraestrutura (pátios de resíduos, produtos e oficinas), pilhas de rejeito/estéril, estradas para transporte de minério/estéril, linhas de transmissão de energia elétrica e subestação de energia elétrica, posto de abastecimento, estrada para transporte de minério/estéril, nos municípios de Nova Lima e Sabará, e já foi objeto de uma audiência pública realizada um dia após um feriado municipal de 8 de dezembro, para discutir o EIA/RIMA.

Bacia do Jambreiro será totalmente arrasada

Segundo informou Artur Picolato, representante da Associação dos Moradores do Bairro Cidade Jardim Taquaril (Amojat), a atividade do complexo minerário “vai criar modificações no pico de Belo Horizonte, causando sérios prejuízos. Um deles é a cava originada dessa operação, estimada em 30 vezes maior que a de Águas Claras. Outra mudança seria na Bacia do Jambreiro, que será totalmente arrasada. O que se retira de Bela Fama, seca em Raposos. E segundo laudos dos próprios órgãos ambientais, cerca de 19 cavernas serão desativadas, sendo uma delas raríssima com 18 metros de altura com ferruginosas. Essa atividade está em uma região limítrofe com vários municípios. Raposos, por exemplo, já aprovou uma lei proibindo a criação de barragens, com receio de repetir a tragédia de Mariana, pois a instalação da mesma seria a 8 km do centro do município”, explicou.

“A Mina de Corumi é a porta de entrada para o Complexo da Mineração Serra do Taquaril. Ela está próxima à bacia do Jambreiro, no divisor de águas entre os dois municípios. Haverá uma depressão na serra e a cava  ficará mais rebaixada que a de Águas Claras”, ressaltou Nicolato.

Artur Picolato informou que “a Mina de Corumi já secou dois cursos d´`agua do córrego do Navio, dentro do Parque da Baleia e dois córregos no Parque das Mangabeiras, assunto inclusive admitido durante a audiência realizada na Câmara Municipal de Belo Horizonte. O projeto original da atividade tem 50 anos de duração, mas o processo está sendo feito em partes. A mina de Corumi é uma pequena proporção dentro desse projeto”, explicou Artur.

Vereador denuncia que relatório já estava pré-definido

Em vídeo exibido nas redes sociais, no último dia 5 de junho, o vereador Gilson Reis (PCdoB) denunciou sobre uma possível visita à exploração da mina da Pau Branco, no último dia 6, onde seria apresentado um relatório pré-definido, que viabilizará a continuidade da exploração na região.

Segundo Gilson Reis, se confirmada a denúncia por representantes da própria Secretaria de Meio Ambiente, “é preciso que toda a sociedade de Minas Gerais se levante contra arranjos e os esquemas montados para viabilizar empreendimentos dessa natureza. Isso é muito ruim, fundamentalmente, no dia internacional do Meio Ambiente, em que lutamos para que nossa cidade tenha um mínimo de qualidade de vida ambiental e, principalmente, no que diz respeito à água”, alertou.

“A população não faz contato visual com a cava, porque ela está escondida atrás da serra. Assim, ninguém sabe o tamanho do verdadeiro estrago da atividade nesse complexo minerário”, comentou Artur Picolato.

No último dia 6 de junho, o movimento em defesa da Serra do Curral contrário à maneira como a atividade está sendo feita na serra ganhou mais um reforço. Músicos, artistas, jornalistas e moradores se engajaram na causa, gravando vídeos de apoio. A campanha “Mexeu com a Serra do Curral, mexeu comigo” traz depoimentos de simpatizantes e convida para ato em defesa do patrimônio da cidade, no dia 10 de junho, em uma caminhada pelo pico da serra e um ato dos artistas na Praça do Papa.

Grandes grupos econômicos estão envolvidos no projeto

Em 2010, através de um protocolo de cooperação técnica, assinado pelo então governador Antônio Anastasia (PSDB), foi anunciado o início de projetos entre a Arcelor Mittal e Taquaril Mineração, através de um investimento de R$ R$ 6,2 bilhões em Minas Gerais. A Taquaril Mineração previa aplicar R$ 3,85 bilhões em Sabará e Nova Lima. A soma dos investimentos formalizados em Minas era da ordem de R$ 52,9 bilhões. Os investimentos da Arcelor Mittal Brasil seriam destinados à expansão das unidades de João Monlevade e Juiz de Fora até 2012. Já a Taquaril Mineração, controlada pela Construtora Cowan, AVG Mineração e Mineração Minas Bahia, anunciou na época a implantação de um complexo minerário para a produção de 25 milhões de toneladas de finos de minério de ferro ao ano, na Serra do Taquaril, entre os municípios de Nova Lima e Sabará. Segundo informou Artur Picolato, a Taquaril Mineração é titular de alvarás de pesquisa e concessão de lavra em área de mais de 1,8 mil hectares entre os municípios.

Ainda segundo o morador, o Projeto Cowan possui apenas 6% das atividades em Nova Lima, a grande porcentagem está em Sabará. Ele conta que a Mina de Corumi poderia facilmente escoar o minério pelo ramal de Sabará, mas não o faz porque toda a produção vai para Mina de Capão Xavier, que detém a logística de todo o processo. “Tudo começou com um pedido de um PRAD – Programa de Recuperação de Áreas Degradadas – feito há 12 anos, para criar uma estrada para o Parque das Mangabeiras. A família Navantino Alves pretendia instalar próximo ao local um loteamento com lotes de 1300 metros, e essa seria a ocupação urbana mais alta de BH”, comenta.

Até o fechamento dessa edição, estava prevista uma caminhada ao pico da Serra do Curral, no intuito de levar a comunidade para conhecer a situação. O trajeto dessa caminhada passaria por dentro de uma comunidade, uma vez que não houve anuência do Parque das Mangabeiras para utilização de percurso por dele.

Fonte: Jornal do Belvedere

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